Viver em equilíbrio é uma escolha. Isso é ainda mais verdadeiro quando confrontamos a realidade que nos cerca nesses primeiros meses de 2024. Depois que o calendário virou a página, brindamos o novo ano e lançamos metas e objetivos. Com o passar dos dias, muitas vezes, o ambiente externo tenta jogar nossos sonhos para longe e, ao olharmos para dentro de nós, nem sempre gostamos desse recanto interno.

É nesse contexto que a matéria de Capa desta edição abre espaço para reflexões e estímulos de uma mudança primordial, de consciência, de atitude e de resultados impactantes. Desta vez, apresentamos o conceito budista da “unicidade da vida e seu ambiente” (esho-funi, em jap.). Em essência, é não deixar as vozes internas da negatividade assumirem o comando, porque a atitude de um budista Soka é buscar esperança onde por vezes não existe. É apropriar-se da força inerente à vida, vencer as dificuldades e servir de inspiração para os outros, além de, juntos, construir uma sociedade saudável a que todos têm direito. A vida é feita de escolhas, que tal brindar um vigoroso novo tempo?

A esperança é sempre um ponto de partida e um eterno reinício

Uma foto feita há mais de trinta anos pela sonda Voyager 1, a uma distância de cerca de 6 bilhões de quilômetros da Terra, mostra nosso planeta como um ponto azul brilhante na vastidão do espaço.1 Carl Sagan (1934–1996), um dos cientistas da missão, fez dessa imagem uma âncora de reflexões e de questionamentos. Em Pálido Ponto Azul, um de seus livros mais emblemáticos, ele revela parte de suas provocações aos seres humanos, em especial sobre quem somos e do lugar que ocupamos neste vasto universo. Ele enfatiza:

Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos. (…)

Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que essa distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.2

A observação de Sagan não poderia ser mais evidente, no confronto das inconcebíveis cenas que o mundo ainda assiste vindas de diversas regiões, em que a dignidade da vida vem sendo reduzida. A morte de inocentes, a desesperança dos que vivem sem lar, para ficar ou para onde buscar. E isso sem falar dos efeitos de mudanças climáticas, que podem ser sentidos diariamente com o aumento de secas, alagamentos, aumento do nível do mar e outros fatos que apontam para um desequilíbrio ambiental. O ano passado foi exemplo crítico dessas consequências. Estudo divulgado em janeiro indica que 2023 foi um ano de máxima temperatura nunca visto desde 1850.3

Como sabemos, o ser humano é o causador e, ao mesmo tempo, a solução de tudo. Nessa concepção, compreender e atuar pela mudança tornam-se urgentes. Não buscar culpados, mas serem os protagonistas da transformação que anseiam no âmbito individual e coletivo. O budismo é um ensinamento milenar, que procura o equilíbrio das relações humanas a partir do empoderamento de cada pessoa. Esse processo de conversão de uma vida presa aos grilhões do carma para uma disposição renovada de dar o primeiro passo e avançar, fazendo a diferença na sociedade, é denominado “revolução humana”.

No cerne desse universo de possibilidades de ser feliz e de inspirar os demais ao redor, encontramos duas assertivas. A primeira é que a verdadeira filosofia não está restrita ao bem-estar dos seus seguidores. Ela estende os braços às pessoas e à sociedade, independentemente de qualquer fator que as separe ou as diferencie.

A segunda é compreender que, em essência, não há separação entre a sociedade (ou o ambiente) e o ser humano. Ou seja, a forma como pensamos e nossas ações cotidianas contribuem diretamente para a realidade que aí está. O budismo conceitua essa interdependência pelo princípio de “unicidade da vida e seu ambiente” (esho-funi). 

Sho vem de shoho, a entidade de vida independente; e vem de eho, o ambiente que sustenta essa vida. Uma vez que a vida humana influencia e depende de seu ambiente, os dois — esho — são inseparáveis — funi.  Em termos simples, a teoria de esho-funi afirma que, embora sejam duas entidades separadas no mundo fenomenal, a vida e o ambiente são essencialmente um. Essa é a abordagem oferecida pelo presidente Ikeda no livro Escolha a Vida, fruto de diálogo mantido com o historiador britânico Arnold J. Toynbee na década de 1980, em que ambos reforçavam a necessidade de uma visão humanística como forma de combater a ação humana danosa. “Agora reconhecemos que a poluição é uma ameaça à sobrevivência da humanidade e que não pode ser curada sem a restrição da ganância”,4 alertava o historiador. Para o Dr. Daisaku Ikeda, “Somente vivendo em harmonia com o ambiente natural, numa relação de dar e receber, é possível ao ser humano desenvolver a própria vida com criatividade”.5 O Dr. Toynbee arremata: “Espero ver esho-funi adotado em todo o mundo como uma crença religiosa envolvendo uma obrigação moral”.6

Quando eu mudo…

O conceito de esho-funi tem a ver com a maneira de enxergamos a vida cotidiana. Há os que buscam soluções fora de si, sendo tragados pelo ambiente externo. No ambiente profissional e social, às vezes queremos mudar o outro à mercê da própria visão. É como se a sombra quisesse comandar o movimento do corpo. No entanto, o budismo elucida a forma de não sermos influenciados pelo ambiente externo, mas de estarmos convictos da vitória a partir de uma resoluta determinação. Se está em cada um de nós a mudança, tanto no aspecto pessoal quanto global, isso nos torna protagonistas plenos e poderosos. Há um palácio interior de esperança, força e sabedoria a ser despertado. 

Ser protagonista da própria história requer, portanto, essa coragem de buscar esperança onde nem mesmo exista. Se observarmos o desenrolar da história mundial, fica claro que o despertar para a mudança, a despeito das circunstâncias serem favoráveis ou não, é o que cria as condições de vitória. A Soka Gakkai, que alcançará seu centenário em 2030, é fruto da visão de futuro e da ação destemida de dois educadores: Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda. Apesar de serem perseguidos e presos e, de Makiguchi perder a vida no cárcere, não abriram mão de suas crenças de que a dignidade da vida deveria ser respeitada. Ou seja, a esperança de que a construção de uma sociedade saudável passa necessariamente pela edificação de um forte eu residindo no coração das pessoas comuns.

Fundamentados nos ensinamentos de Nichiren Daishonin, Makiguchi e Josei  Toda selaram as bases da Soka Gakkai, propiciando aos seus membros construírem uma vida automotivada e expansiva. Isso porque todos aprendem a desafiar limites, a cavar esperança no solo árido do sofrimento e a triunfar sobre a paralisia e o medo. A filosofia humanística da Soka Gakkai iniciada por Makiguchi foi herdada por Josei Toda e abraçada por Daisaku Ikeda, que por mais de setenta anos se dedicou a sedimentar e a expandir a filosofia da esperança pelo mundo, até o seu falecimento em novembro de 2023, aos 95 anos. Uma existência de sabedoria extraordinária.

Não importando as diferenças culturais, econômicas e sociais de cada região, os membros Soka experenciam o que Makiguchi sensei referia-se como uma “forma holística de viver”.  O presidente Ikeda esclarece: “Ele [Makiguchi] queria dizer uma harmonia criada entre o indivíduo e o todo. Portanto, ele falava de uma situação em que cada pessoa, ao mesmo tempo em que evidencia seu pleno potencial, empenha-se em contribuir para a paz e a prosperidade de toda a sociedade”.7

Essa é a consciência de que somos todos um só. E assim como o cientista Carl Sagan vislumbrava “esta é a nossa casa”, Makiguchi sensei sinalizava há quase cem anos para não termos uma “visão míope do mundo”, que, segundo ele, se referia ao egoísmo de pensar unicamente no ganho pessoal. Essa é a maneira de ser de um budista Soka, o qual estabelece para si um modo de vida em que batalha pela superação de seus dramas, enxerga significado em tudo, extrai valor de cada momento e gera oportunidades de avanço ininterrupto para si e para o outro. Talvez seja por isso que muitos pensam que budista é alguém que parece ser feliz mesmo em meio à mais dura realidade. Porém, em essência, ele transforma sofrimento em felicidade absoluta, pois reconhece sua missão como “bodisatva da terra” — representação elucidativa dos que despertaram para a consciência de que é possível romper as amarras do carma.

A capacidade de romper limites

O modo budista de ser nos direciona a enxergar os problemas como oportunidades, pois ressignificamos o passado e deixamos de ser apáticos diante da vida. Basta analisar as batalhas diárias que muitas vezes travamos entre avançar e recuar; colocar a mão na massa ou procrastinar, mais uma vez, sonhos e objetivos.

Nós crescemos quando nos forçamos a ultrapassar nossos limites, quando desafiamos a nós mesmos a ir além do que julgamos ser capazes. Desse modo, conseguimos romper nossa concha, tornamo-nos fortes, expandimos nossa condição de vida e realizamos nossa revolução humana. Esse é o caminho da prática budista.8

Essa é a tradução de uma vida automotivada e expansiva, que começa com o “levantar-se” com renovada disposição, esperança e vigor na busca pelos objetivos pessoais, ao mesmo tempo em que exercitamos a compaixão em encorajar os que sofrem, com o puro sentimento de trazê-los para a órbita da felicidade. Sim, a felicidade é o que todos almejam, e nem sempre se tem a ideia certa do que significa.

O Dr. Daisaku Ikeda constantemente ressaltava sobre as formas de buscar a felicidade, em que muitos perseguem “palácios da felicidade” como fortuna, posição social, fama e popularidade. Ele enfatizava serem como as luzes de vaga-lumes, de uma beleza cintilante, mas que rapidamente se desvanecem. Ele contextualiza:

Uma pessoa pode viver numa casa espetacular e rodeada de riquezas, mas se for gananciosa e possuir uma condição de vida baixa, não será feliz no real sentido; na verdade, habitará um palácio da miséria. Em contraste, se a pessoa tem um coração belo, generoso e uma elevada condição de vida, seja qual for sua circunstância atual, com certeza alcançará tanto a felicidade material quanto a espiritual. Isso está de acordo com o princípio budista de “unicidade da vida e seu ambiente” (esho-funi), ou seja, nossa vida e o ambiente em que vivemos são unos, inseparáveis. Quando a pessoa abre o palácio da própria vida, isso conduzirá ao descortinar do “palácio da felicidade” na vida de outras pessoas e do “palácio da prosperidade” na sociedade. Há uma continuidade que se processa entre aquela que abre o palácio da própria vida e as demais que fazem o mesmo. Este é um princípio maravilhoso do budismo.9

Dessa perspectiva, uma vez descoberta a força do nosso “palácio interior”, podemos avançar com segurança, fundamentados na sabedoria budista, da qual nos apropriamos livremente, sem depender de nada que venha de fora. Como conquistar essa condição? O Mestre orienta: “Acessamos esse palácio da nossa vida ao abraçarmos a fé na Lei Mística e recitarmos Nam-myoho-renge-kyo. Em outras palavras, Daishonin ensina que somos capazes de fazer o “palácio de si mesmo” brilhar com insuperável radiância”.10

Trata-se de um empoderamento que gera efeito imediato nas relações humanas, no ambiente familiar e profissional. Assim como a sombra acompanha o corpo, nosso ambiente externo responde pela determinação de uma vida elevada, de propósito, que assumimos.

Como cada indivíduo pode exercitar esse modelo de vida compartilhado? Alguns pontos se evidenciam como resultado do teor apresentado até aqui, associados a seguir com trechos de incentivos de Ikeda sensei. São tópicos de ação prática para expandirmos a vida.

Supere-se!

Vença as vozes internas do negativismo, transpondo os limites de capacidade e força na superação dos objetivos.

Qualquer um, a despeito de idade ou gênero, pode evidenciar coragem. Podemos vencer nossa fraqueza interior com o rugido do leão do Nam-myoho-renge-kyo e tomar atitudes para superar as limitações que impusemos a nós mesmos e que nos fazem desistir ou nos contentar com menos do que merecemos.11

Surpreenda-se!

No budismo, oramos para manifestar a força do universo que existe dentro da nossa vida. É uma oração de decisão profunda, de aprimorar a vida e transformar qualquer circunstância.

A Lei Mística é o maior dos tesouros do universo, portanto, recitar Nam-myoho-renge-kyo [daimoku] significa acumular diariamente tesouros em nossa própria vida. Por outro lado, o daimoku também age para limpar as causas negativas do passado, assim como a água suja e turva é lavada pela água pura e límpida.12

Socialize-se! Semeie esperança!

Nada mais forte que todos juntos! Ao sermos ombro e braço dos que sofrem, nossa vida se expande. O humanismo budista é a prática da empatia. Orar para a segurança das pessoas, para a paz no mundo e construir uma sociedade saudável para todas.

A paz mundial não é utopia, pois ela começa com as ações de cada pessoa que desafia e vence a própria realidade com base na prática da fé e se torna referência positiva em seu meio. Parece pouco, mas os esforços de uma única pessoa são capazes de motivar inúmeras outras.13

Tudo se resume ao ser humano

Há pouco, o calendário virou ano. Ainda estamos sob o efeito do forte calor resultante das mudanças climáticas que o próprio ser humano tem contribuído contra. Nas questões individuais, nossa lista de objetivos não pode ficar na gaveta, esquecida ou propositadamente deixada de lado pelo medo de não darmos conta de concretizá-los.  Em meio a essa sensação de impotência, que frequentemente nos convida à desistência, abrimos clarão com os ensinamentos do buda Nichiren Daishonin, cada vez mais atuais. Daishonin nos faz enxergar o caráter de interdependência que liga a teia da vida. Homem e meio ambiente são inseparáveis, assim como a sombra e o corpo.

Tudo se resume ao ser humano. Portanto, para fazer frente ao desafio de terem uma sociedade saudável, os membros da Soka Gakkai se exercitam para uma vida automotivada e expansiva — ou “uma forma holística de viver”, não dependendo de fatores externos, desafiando os limites. Ao verem sempre oportunidades diante das dificuldades, fortalecem a convicção de que a vitória só depende de cada indivíduo, dentro de um processo de reforma interna chamado “revolução humana”. O presidente Ikeda deixou gravada essa assertiva nas obras Revolução Humana e Nova Revolução Humana, esta última com trinta volumes, escritos ininterruptamente durante 25 anos. Ele sedimentou esse compromisso com a vida dizendo que “O tema central dos romances Revolução Humana e Nova Revolução Humana é “A grandiosa revolução humana de uma única pessoa um dia impulsionará a mudança total do destino de um país e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade”.14

Quando eu mudo, tudo muda. Eis a perfeita sintonia do que o budismo nos alimenta, de protagonizar uma jornada de vitórias. Por meio da recitação da Lei Mística, Nam-myoho-renge-kyo, os problemas perdem sua intensidade diante da magnitude e força que o nosso coração evidencia com a prática da fé. Em vista disso, irradiamos essa alegria para todos ao redor, fazendo-os despertar para seu precioso palácio interior. Então, sem perder de vista que podemos criar histórias revigorantes neste significativo ano, façamos deste mês um ponto primordial para o estabelecimento um modo de vida automotivado e expansivo, cientes de que nas pequenas atitudes se encontram a causa para a vitória. E apostar firme na lista de objetivos para 2024, sem medo.

Notas:

1. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51497794#:~:text=Em%20seu%20livro%20de%201994,Somos%20n%C3%B3s%22. Acesso em: 10 fev. 2024.

2. Disponível em: https://www.google.com.br/books/edition/P%C3%A1lido_ponto_azul/-mGiDwAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&printsec=frontcover. Acesso em: 10 fev. 2024.

3. Disponível em: https://umsoplaneta.globo.com/clima/noticia/2024/01/09/confirmado-2023-foi-o-ano-mais-quente-da-historia-e-2024-pode-ser-pior.ghtml / Acesso em: 10 fev. 2024.

4. TOYNBEE, Arnold J.; IKEDA, Ikeda. Escolha a Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 54 .

5. Ibidem, p. 49.

6. Ibidem, p. 54.

7. Terceira Civilização, ed. 420, ago. 2003, p. 19.

8. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. v. 12. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2020. p. 105.

9. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. v. 1. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 33-34.

10. Ibidem, p. 33.

11. Brasil Seikyo, ed. 2.435, 15 set. 2018, p. B4.

12. Idem, ed. 2.511, 11 abr. 2020, p. 4-5.

13. Idem, ed. 2.413, 31 mar. 2018, p. C2-C3.

14. IKEDA, Daisaku. Revolução Humana. v. 1. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 17.