Filosofia

Princípios e conceitos do Budismo

O primeiro Buda registrado na história foi Shakyamuni. Nascido no Nepal, na divisa com a Índia, como príncipe do clã Shakya, filho do rei Suddhodana e da rainha Maya, acredita-se que tenha vivido entre os séculos 4 e 5 a.E.C.

Muito inteligente e sensível, Siddhartha Gautama (nome de batismo) começou a sofrer de uma grande angústia espiritual na juventude. Chegou à conclusão de que todas as pessoas, inclusive ele, estavam irremediavelmente condenadas aos quatro sofrimentos da vida: nascimento, envelhecimento, doença e morte.

Siddartha questionava a razão pela qual as pessoas passavam por esses quatro sofrimentos. Assim, partiu de sua terra, deixando esposa, filho e toda a sua riqueza, em busca de respostas. Após muita procura e profunda meditação, Siddhartha percebeu que o Universo e os seres humanos passam a cada instante pelo ciclo de nascimento e morte, ou seja, nascem, crescem, envelhecem e morrem. Concluiu que nada no mundo, nem mesmo a natureza,
permanece imutável por um instante que seja. Dessa forma, ele alcançou o domínio sobre a natureza mística da vida e compreendeu que poderia expandir sua condição de vida ilimitadamente.

Depois de iluminar-se para a verdade da vida, passou a ser chamado de Shakyamuni, o sábio dos Shakya. Shakya é o nome herdado do seu clã e muni designa “aquele que despertou”. Shakyamuni expôs seus ensinamentos durante vários anos e o Sutra do Lótus é o mais importante deles. Séculos depois, no Japão, Nichiren Daishonin (1222–1282) considerou o sofrimento das pessoas como o seu próprio sofrimento e, numa época de grande distúrbio social, buscou um caminho que solucionasse a miséria do povo.

O Budismo Nichiren se baseia na simultaneidade de causa e efeito como princípio universal. De acordo com os ensinamentos de Nichiren Daishonin, a simultaneidade de causa e efeito é um atributo da Lei Mística ou da própria vida. Quando uma pessoa recita Nam-myoho-renge-kyo (causa), independentemente de seu estado de vida, o estado de Buda dormente em seu interior emerge ao mesmo tempo (efeito). 

Nam-myoho-renge-kyo, por sua vez, é a Lei fundamental que permeia todo o universo para a qual o Buda Nichiren Daishonin despertou. Nessa Lei, encontra-se a solução para erradicar o sofrimento humano em sua essência ao proporcionar a transformação do seu destino. Quando uma pessoa recita Nam-myoho-renge-kyo ao Gohonzon (prática para si) e também ensina outras a fazer o mesmo (prática para os outros), significa que ela está promovendo o kosen-rufu exatamente como o Buda Nichiren Daishonin fez.

Acreditar no Myoho-renge-kyo é, propriamente, atingir o estado de Buda. A recitação do Nam-myoho-renge-kyo é a causa e o efeito num único momento da vida, ou seja, a fé (causa) que conduz à manifestação do estado de Buda (efeito). A recitação do Nam-myoho-renge-kyo não é somente a voz da fé das pessoas comuns; é também a voz do estado de Buda.

– Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI)

Todos conseguem manifestar o estado de Buda aqui e agora

Quando os ensinamentos de Shakyamuni e suas práticas entraram em declínio, Nichiren Daishonin estabeleceu a Lei Mística com a convicção de que essa seria propagada pelo mundo para a felicidade da humanidade. Daishonin revelou o Nam-myoho-renge-kyo como Lei fundamental inerente a todas as formas de vida e ao Universo com o propósito de garantir às pessoas a manifestação do estado de Buda.

O Budismo de Nichiren Daishonin é uma religião para toda
a humanidade

O Nam-myoho-renge-kyo é o caminho fundamental que permite a todas as pessoas manifestar sua natureza de buda. Considerando que foi Nichiren Daishonin quem estabeleceu esse caminho, poderia ser dito que ele fundou a “escola Nam-myoho-renge-kyo do budismo”. No entanto, seu ensinamento vai além dos limites de uma simples escola, pois suas portas são abertas para as pessoas de todos os lugares. Em outras palavras, Daishonin deu início a uma religião para toda a humanidade. O Budismo de Nichiren Daishonin é realmente uma religião humana, uma religião mundial no verdadeiro sentido da palavra.

Dez mundos e a dinâmica da transformação do destino

A teoria dos dez mundos embasada no Sutra do Lótus é um princípio filosófico para a dinâmica transformação da vida de todas as pessoas, que corresponde à base da filosofia budista. Originalmente, os dez mundos eram vistos como locais fisicamente distintos, cada um deles habitado pelos respectivos seres. Entretanto, o Sutra do Lótus ensina que cada um dos dez mundos contém inerentemente os outros dez. 

Mundo do Inferno

É a condição de vida mais baixa de todas, marcada por sofrimento extremo e constante em que não se tem forças para mudar as circunstâncias e nem esperança em relação ao futuro. Em O Objeto de Devoção para Observar a Mente, Daishonin afirma: “O ódio indica o mundo do inferno”. Esse ódio indica o sentimento manifestado pela pessoa em relação à sua própria condição de sofrimento.

Mundo dos espíritos famintos

Indica a condição de vida do estado de fome, caracterizada pela obsessão de realizar os desejos e pela incapacidade de satisfazê-los. É uma condição de vida em que a intensa e desenfreada chama dos desejos acaba destruindo a própria vida e em que não se consegue direcionar os desejos rumo ao próprio desenvolvimento; a pessoa, ao contrário, acaba se tornando escrava desses desejos, causando sofrimento para si mesma.

Mundo dos animais

É a ausência da razão e a busca por interesses imediatos. Indica uma condição de vida, o estado de animalidade, em que as pessoas são conduzidas unicamente por seus instintos, sem conseguir discernir o certo do errado. Daishonin ressalta: “A estupidez é o mundo da animalidade”.

Mundo dos asura

O mundo dos asura remete a um demônio da Índia antiga e representa a condição de vida no estado de ira, caracterizada pelo constante e desenfreado desejo de superar os outros. Quando uma pessoa no estado de ira se defronta com alguém que considera inferior, ela manifesta arrogância e menosprezo; quando encontra alguém superior, torna-se subserviente, bajuladora e procura se mostrar humilde, porém, em seu íntimo, sente inveja e decepção. Essa ambiguidade entre as ações e o coração caracteriza o estado de ira.

Mundo dos seres humanos

Também denominado estado de tranquilidade ou de humanidade. Nessa condição de vida, a pessoa manifesta paz e serenidade como um verdadeiro ser humano. Ela conhece o princípio de causa e efeito, a razão se manifesta claramente no julgamento do bem e do mal e ela tem autocontrole. É uma condição difícil de se manter por causa da realidade cotidiana e exige esforço contínuo. Esse estado é o primeiro  passo para conquistar a vitória sobre si mesmo. O perigo é que, num instante, a pessoa pode cair nos maus caminhos, apesar de possuir o potencial para avançar para os quatro nobres mundos por meio da prática budista.

Mundo dos seres celestiais

Indica a condição de vida chamada estado de alegria, que se caracteriza pelo contentamento oriundo da concretização dos desejos que resulta de seus próprios esforços. Essa condição nasce da concretização dos mais variados tipos de desejos, como instintivos (sono, alimento), materiais (carro, casa), sociais (fama, posição social), espirituais (contato com lugares desconhecidos ou criação em forma de arte), entre outros. Todavia, a alegria desse estado é efêmera e desaparece com o passar do tempo.

Mundo dos ouvintes da voz e mundo dos que despertaram para a causa

São conhecidos como dois veículos e correspondem, respectivamente, aos estados de erudição e de autorrealização. Erudição é a condição experimentada quando se luta por um estado duradouro de contentamento e estabilidade por meio da autorreforma e do desenvolvimento próprio.

Autorrealização

É um estado em que a pessoa alcança a percepção parcial da verdade por si mesma com a observação direta dos fenômenos da natureza. A limitação desses dois mundos está no fato de que as pessoas que neles se encontram não se empenham em beneficiar outras pessoas. Assim, a condição das pessoas dos dois veículos fica limitada ao egocentrismo.

Mundo dos bodisatvas

O que caracteriza esse estado é o espírito de procura ao mais elevado estado de vida (estado de Buda), ao mesmo tempo em que se empenha pelo bem de outras pessoas e compartilha os benefícios conquistados por meio da prática budista. O mundo dos bodisatvas representa uma condição de vida baseada na compaixão voltada para o bem de todos.

Mundo dos Budas

Constitui-se a mais digna e respeitável condição de vida. A palavra Buda significa “iluminado” e indica alguém que despertou e alcançou a percepção da Lei Mística como a Lei fundamental da vida e do Universo. O mundo dos Budas é inerente à vida de todos nós. A fé no Gohonzon do Nam-myoho-renge-kyo é o meio para manifestar o estado de Buda em nossa vida. Em termos contemporâneos, esse estado é o da felicidade absoluta, que não é influenciada por nada. Essa condição inabalável de paz e segurança pode ser comparada ao rei leão que não teme a nada, sejam quais forem as circunstâncias.

FAQ

Perguntas frequentes sobre a filosofia budista

Confira algumas das principais perguntas sobre nossa filosofia e tire suas dúvidas sobre os principais conceitos do budismo.

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O Budismo acredita em Deus?

O Budismo Nichiren denomina Lei Mística (Nam-myoho-renge-kyo) como a força que rege todo o Universo. Nos ensinamentos budistas, não se fala de um ser transcendental, uma entidade superior às pessoas, mas uma energia extremamente  poderosa que está contida no Universo e em todas as formas de vida. Essa força (Nam-myoho-renge-kyo) pode ser manifestada pelas pessoas no dia a dia.

O ensinamento pregado por Jesus — a igualdade entre todos os homens perante Deus — mantém certa relação com o Budismo do ponto de vista do universalismo da igualdade. Porém, há uma diferença crucial na questão em que se coloca uma desigualdade absoluta entre Deus e os homens, pois o Budismo prega que os homens são todos respeitáveis Budas potenciais. Contudo, é inegável que Jesus ensinou no decorrer de sua vida cheia de adversidades o princípio do amor universal que transcende as diferenças de raça e nacionalidade.

Daisaku Ikeda

Qual é a perspectiva do Budismo com relação à vida e à morte?

O Budismo ensina que a vida é eterna. Conforme esclarecido pelo presidente Ikeda, “o Universo [pode ser descrito] como uma grande entidade viva, como um vasto oceano, e cada vida, como uma onda desse oceano. A vida pode ser associada ao momento em que as ondas se levantam na superfície do oceano. A morte, ao momento em que se fundem ao oceano”. Ele diz:

Essa vida não cessa sua existência. Quando encontrar as condições ideais, vai se manifestar novamente. Mas se perguntarem se essa vida existe como algo tangível, a resposta é absolutamente não. Não podemos localizá-la em algum lugar do Universo, pois ela se  torna una com todo o Universo. Isso não significa existência nem não existência. O Budismo se refere a isso como o estado de não substancialidade (kuu). 

Qual é o significado de carma?

A palavra sânscrita karma (carma) significa, literalmente, “ação”. O Budismo identifica três categorias de ação: mental, verbal e física. Em outras palavras, o carma é formado de três maneiras: por pensamentos, por palavras e por ações. O poder que existe em cada um de nós é ilimitado. Por mais difícil que seja seu destino, é possível mudá-lo definitivamente. O Budismo Nichiren ensina que não há adversidade ou sofrimento insuperáveis. 

A verdadeira liberdade começa com a “transformação do carma em missão”. Esclarece que, ao mudar a maneira de enxergar o carma, muda-se a realidade. O carma não é um destino imposto por uma força transcendental, mas sim a missão que você escolheu como oportunidade para evidenciar a força infinita que existe em você.

Por que recitar Nam-myoho-renge-kyo diante do Gohonzon?

O Gohonzon é a incorporação do estado de buda, a condição de vida mais elevada inerente aos seres vivos e ao Universo.

Ao recitar Nam-myoho-renge-kyo diante do Gohonzon, o estado de buda se manifesta e, com a imensa força vital e a sabedoria que surgem, os obstáculos e as dificuldades são ultrapassados.

O Gohonzon é a pura fé que a pessoa tem em si mesma e nas demais pessoas. Essa fé se expressa pela corajosa oração na qual o praticante jura ser feliz, mudar o destino e conduzir os demais ao estado de buda. Uma vida baseada no Gohonzon é sábia, corajosa, feliz, livre, ampla, sincera, generosa e realizada.

O curso da vida pode ser comparado à escalada em uma montanha. Para uma pessoa sem habilidades nem resistência física, subir a montanha pode custar-lhe a vida. Mas, para um alpinista possuidor de técnica e bom preparo físico, cada desafio é uma aventura emocionante e prazerosa. As dificuldades da vida são como os desafios da escalada em uma montanha traiçoeira. Quando enfrentadas por uma pessoa repleta de força vital e sabedoria, adquiridas com a recitação do daimoku ao Gohonzon, as dificuldades transformam-se em base para a edificação de um caráter verdadeiramente humano.

Para vencer as duras investidas do destino, um ser humano precisa do apoio de outro ser humano. A SGI é uma rede que cresce continuamente e está baseada na sinceridade, na incrível capacidade de criar laços com outras pessoas e encorajar a si mesmo e aos outros. É um modo de vida maravilhoso!

A prática budista da SGI é o único meio capaz de despertar o estado de buda nas pessoas e realizar a paz mundial?

Nos tempos atuais, essa prática é o meio certeiro para cada pessoa manifestar seu máximo potencial, o estado de buda. A filosofia da SGI oferece um panorama claro e profundo da vida humana por meio da teoria da possessão mútua dos dez mundos. Ensina também que a revolução humana traz à tona a dignidade da vida ao defender a existência do estado de buda em cada ser vivo. Nichiren Daishonin deixou para todas as pessoas o Nam-myoho-renge-kyo, cuja recitação faz com que o estado de buda se manifeste.

Por meio da recitação do daimoku ao Gohonzon, que é a incorporação do Nam-myoho-renge-kyo, a Lei fundamental da vida e do Universo, o estado de buda contido no Gohonzon e o estado de buda contido na vida do indivíduo entram em fusão, fazendo com que uma poderosa força seja evidenciada.

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