Uma mudança positiva profunda na forma como percebemos o mundo e a nós mesmos causa um impacto decisivo em nossa vida, influenciando nosso bem-estar físico e mental. Essa transformação, por sua vez, gera a sabedoria para nos tornar agentes transformadores da sociedade e do ambiente físico que nos rodeiam.1 Os praticantes do Budismo de Nichiren Daishonin na Soka Gakkai dão a esse processo o nome de “revolução humana”.
Nesta edição, vamos refletir sobre o que representa esse supremo objetivo da prática budista e a missão da Soka Gakkai: a revolução humana — seu significado, como identificá–la e sua importância para a transformação da nossa vida e de todo o mundo.
A mais fundamental das revoluções
O termo “revolução” é comumente entendido como uma mudança radical em uma estrutura que pode ser científica, cultural, industrial, política ou em qualquer estrutura que envolva o ser humano.2 Há exemplos marcantes de revoluções, como Revolução Cultural Chinesa, Revoluções Russa, Francesa e Inglesa e Revoluções Industriais, dentre outras. De fato, ao longo da história, grandes revoluções aconteceram. No entanto, você já teve a sensação de que a “história se repete”? E de que, apesar de as alterações acontecerem nas diferentes esferas da sociedade, ainda enfrentamos os mesmos problemas como humanidade?
Até a metade do século 17, o termo “revolução” era utilizado apenas no campo da astronomia, por sua derivação do latim revolvere, que significa “dar voltas”, e correspondia ao que conhecemos hoje de movimento de translação dos astros3 — como a volta que a Terra dá em torno do Sol, por exemplo. Já no fim desse mesmo século, passou a ser associado a essas grandes turbulências sociais que, ao término, apesar das mudanças, pareciam voltar ao ponto inicial4 — o estabelecimento de uma estrutura que não beneficiava a todos.
Isso ocorre porque nessas revoluções, as mudanças aconteceram no ambiente que envolvia a vida humana, porém não ocasionaram a mudança do ser humano em si. Sobre esse ponto, o presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), Dr. Daisaku Ikeda, nos leva a refletir:
Existe todo tipo de revolução: política, econômica, industrial, científica, artística, dos meios de comunicação, entre outras. Cada uma possui sua própria importância e, frequentemente, sua necessidade. Mas, por mais que uma dessas áreas mude, o mundo jamais irá melhorar enquanto as pessoas — que são a força propulsora de todos os empreendimentos — forem egoístas ou insensíveis. Nesse sentido, a revolução humana é a mais fundamental de todas as revoluções, e também a mais necessária para toda a humanidade.5
Qual o sentido da palavra “revolução” na expressão “revolução humana”? Esse termo foi cunhado pelo segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, com o objetivo de tornar mais acessível e claro o conceito de “atingir o estado de buda”, culturalmente percebido no Japão como uma condição alcançável apenas após a morte, dando-lhe o sentido de aperfeiçoar-se na presente existência transformando sua condição de vida.6 O presidente Ikeda elucidou:
“Revolução” indica mudar o curso das coisas. Denota uma transformação súbita e radical. O processo natural é que as pessoas cresçam pouco a pouco com o passar do tempo. A revolução humana vai um passo além desse encadeamento gradativo, impulsionando-nos rapidamente numa direção positiva. E, embora seja um aperfeiçoamento veloz, também consiste em um crescimento que prossegue por toda a vida.7
Sinais de mudança de rota
Vamos considerar, então, duas estradas infinitas. Quanto mais se percorre essas estradas, mais desafios e mais benefícios são alcançados. Na primeira, a velocidade máxima permitida é de 60 km/h. Por mais que se tenha um veículo tecnológico e de alta potência só se pode trafegar dentro dessa velocidade. Já a segunda é um verdadeiro autódromo, uma pista preparada para ser percorrida a toda velocidade.
Vamos imaginar que iniciar a prática budista é como se fosse dado à pessoa um veículo de máxima eficiência. Mas, se ela ainda não tiver consciência do seu grande potencial inato de transformação — a capacidade de realizar a sua revolução humana —, estará trafegando dentro de um poderoso veículo, porém na primeira estrada. Entretanto, no momento em que passa a entender o próprio potencial, a entrada para a segunda estrada, a pista de corrida, fica evidente. Ao decidir realizar a sua transformação, ela mudará o curso da própria vida. Essa mudança de rota nos remete à mudança “súbita e radical” das revoluções, e o avanço contínuo por essa estrada é o que distingue a revolução humana.
“A revolução humana não é algo extraordinário nem distante da nossa vida diária.”8 Como seres humanos, possuímos a distinta capacidade de buscar o autoaprimoramento. E, embora nossa vida seja caraterizada pela complexa conexão entre carma, personalidade, hábitos, sociedade e ambiente, a mudança da condição de vida — condição mental —
pode modificar tudo.9 Essa mudança da condição de vida pode ser alcançada por meio da prática do Budismo Nichiren. Mas como podemos observar essa revolução de forma prática?
Ikeda sensei sugeriu sete indicadores10 concretos para observarmos em nosso processo de transformação interior.
São eles:
Saúde
Esse primeiro indicador traz à tona o alicerce da nossa vida. Se nossa saúde física ou mental estiver comprometida, assim também se tornam os outros aspectos da nossa existência. É como se, apesar de estarmos na estrada “sem limite de velocidade” com o melhor dos veículos, não pudéssemos explorá-los livremente, pois tem alguma parte desajustada. Claro que, como seres -humanos, podemos ficar doentes. “O importante é nossa sincera oração budista para sermos saudáveis e sintonizarmos nossa vida ao ritmo fundamental do Universo na dimensão mais profunda”11 e com essa determinação construirmos um estilo de vida equilibrado.
Jovialidade
O segundo indicador é “manter o -espírito jovem por toda a vida”.12 A jovialidade é a demonstração de “boa disposição, alegria e bom humor”.13 É manifestar o ímpeto de aprender e de avançar em cada parte da nossa jornada pela estrada. Ikeda sensei afirma: “Contanto que continuemos praticando com energia e nos esforcemos para nos aprimorar e
nos desenvolver, jamais perderemos o espírito jovem”.14
Boa sorte
O terceiro ponto é a boa sorte. “A única maneira de assegurar a felicidade é acumular boa sorte. E a fé e a prática budistas são o único caminho para fazer isso.”15 Ao nos dedicar à prática da fé em prol da transformação da nossa vida e da vida de outras pessoas, conseguimos evidenciar o aspecto iluminado da essência de todas as coisas, assim como a nossa.16 A boa sorte em nosso exemplo da estrada seria como ter, além de nossa convicção e esforço, longos trechos de asfalto nas melhores condições, encontrarmos um posto de gasolina no momento certo para abastecer o veículo ou a ajuda adequada, caso seja necessário parar no acostamento.
Sabedoria
O quarto indicador é a sabedoria. “A fé na Lei Mística nos possibilita ativar a força infinita da vida e a sabedoria do buda para superar os problemas e sofrimentos, alcançar a revolução humana e transformar a vida.”17 A melhor maneira de conduzir nosso veículo na estrada da revolução humana é com o motor da fé, o combustível da prática e o volante do estudo.18 Desse modo, conseguimos trafegar em cada trecho da estrada, em segurança e com a velocidade ideal para avançarmos, ao mesmo tempo que apreciamos cada paisagem no caminho.
Paixão
O quinto parâmetro é a paixão. Por mais que sejamos sábios e inteligentes, se não tivermos o profundo desejo e entusiasmo pela transformação da nossa vida, da sociedade e do ambiente em que vivemos, nossa existência perderá o brilho e todos os seus aspectos se tornarão um grande peso. É como se tivéssemos um veículo incrível e uma belíssima -estrada, mas estivéssemos parados, sem vontade de avançar. Exemplo ideal sobre essa paixão está no poema de Ikeda sensei A Estrada: “Existe uma estrada / E essa é a estrada que eu amo. / Eu a escolhi. / Quando trilho essa estrada, / as esperanças brotam / E o sorriso se abre em meu rosto /
Desta estrada nunca, / jamais fugirei”.19
Convicção
O sexto ponto é a convicção. A convicção no Nam-myoho-renge-kyo e no Gohonzon nos dá a oportunidade de manifestar a resoluta determinação em nosso modo de viver, possibilitando-nos realizar a revolução humana, na qual “pulsa uma grandiosa energia vital que permite vencer e superar quaisquer tempestades do destino que [nos] assolem”.20 Dessa forma, mesmo que surjam condições adversas — chuvas, buracos, desvios — em nossa estrada, a convicção torna possível extrairmos do nosso âmago a resiliência para ultrapassar
tais dificuldades.
Vitória
O sétimo indicador da revolução humana é a vitória. Podemos dizer que a revolução humana consiste em vencer cada desafio em nossa vida. Ikeda sensei ressalta:
Pessoas de comprovação são fortes porque sentiram a força do Gohonzon na própria vida. É importante compreender o budismo na teoria, fator que proporciona a continuidade da fé. Contudo, depender somente disso deixa as pessoas vulneráveis. Entender racionalmente é muito diferente de compreender com a própria vida.21
Ao percorrermos continuamente nossa estrada, vencendo trecho a trecho, comprovamos a veracidade da nossa prática com a certeza de que escolhemos o rumo certo para a transformação.
O destino dessa jornada
Esses sete indicadores da revolução humana se unem e nos permitem evidenciar profunda compaixão. O presidente Ikeda declarou:
Revolução humana consiste numa revolução em nossas ações e em nosso comportamento. Significa realizar ações movidas pela compaixão, que nos libertem do ciclo dos seis caminhos e nos conduzam aos estados de bodisatva e de buda. Quando a revolução humana se propaga à família, ao país e ao mundo, converte-se numa revolução não violenta em prol da paz.22
Quando passamos a nos preocupar não somente com nossa própria vida, mas com a felicidade e o bem-estar de outras pessoas, conseguimos romper a concha do nosso “eu menor” expandindo nossa condição de vida. A fusão da prática para si e da prática para os outros é a verdadeira força propulsora para a nossa revolução humana.23 É como uma via de mão dupla.
Sua revolução humana é como empreender o movimento pelo kosen-rufu no microcosmo de seu próprio mundo interior. Quando várias pessoas buscarem a revolução humana, poderão propagar o kosen-rufu em toda a sociedade. Em outras palavras, o kosen-rufu avançará na mesma medida em que vocês avançarem em sua própria revolução humana.24
Como vimos, a revolução humana é uma mudança fundamental em nossa forma de viver. Não é uma mudança pontual com riscos de voltar a repetir os mesmos comportamentos. Por meio dela conseguimos avançar rapidamente em nosso caminho contínuo de transformação. Temos também vários indicadores que funcionam como placas sinalizadoras pela estrada da revolução. Ao mesmo tempo, nossa própria jornada pode se tornar uma via de acesso para que outras pessoas entrem na própria jornada de sua revolução humana, criando assim uma grande malha rodoviária na qual todos os caminhos resultam na transformação pacífica do nosso mundo.
A SGI se empenha arduamente para possibilitar que todas as pessoas se tornem felizes — não há nenhuma outra razão para a sua existência. Por meio das atividades que disseminam a amizade em nossas comunidades e na sociedade, estamos acumulando tesouros na vida dia após dia. Como praticantes do Budismo de Nichiren Daishonin, empenhemo-nos para viver de um modo que inspire os outros a admirar e a desejar seguir nosso exemplo, e escrevamos o épico da revolução humana de nossa vida de um modo original, só nosso. O essencial é transformar a nós mesmos.25
Notas:
1. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 26.
2. FERNANDES, Cláudio. O que é Revolução? Brasil Escola. Disponível em: https://shorturl.at/AaoIx. Acesso em: 6 abr. 2025.
3. Ibidem.
4. Ibidem.
5. IKEDA, Daisaku. Juventude: Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 207, 2020.
6. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 32.
7. Ibidem, p. 29.
8. IKEDA, Daisaku. Juventude: Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 204, 2020.
9. Ibidem.
10. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 31.
11. Ibidem, p. 33.
12. Ibidem.
13. DICIO. Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/jovial/. Acesso em: 6 abr. 2025.
14. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 33.
15. Idem. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 22, p. 230, 2019.
16. Terceira Civilização, ed. 680, abr. 2025, p. 20.
17. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 6, p. 241, 2019.
18. Brasil Seikyo, ed. 2.673, 31 dez. 2024, p. 2-3.
19. RDez, ed. 229, jan. 2021, p. 20-21.
20. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 27, p. 154, 2021.
21. Ibidem, p. 155.
22. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 28.
23. Ibidem, p. 35-36.
24. IKEDA, Daisaku. Juventude: Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 204, 2018.
25. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 39.